segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Resenha - O Amor Líquido


O Amor Líquido [Ou algumas considerações acerca do amor moderno]

Por Mauro Henrique Santos *

Este é um artigo que nunca gostaria de escrever e muito menos que fosse necessária a sua indicação. Não por uma possível inutilidade, mas sim por um desejo idealista meu de que o Amor, instância para mim superior, fosse sempre imaculado e não influenciado por qualquer coisa que esteja fora dele mesmo. Mas infelizmente, neste sentido, como disse Marx:
"O modo de produção dos bens materiais de existência determina necessariamente o processo de vida social, cultural e intelectual” [1].

Sendo o amor um fenômeno social e, portanto, construído historicamente, sofre influências desse mundo que se convencionou chamar de "pós-moderno" [2] e do modo de produção neoliberal, em que o "homem sem vínculos" [3] é eleito o nosso grande herói. Esse é o cerne do pensamento de Zygmunt Bauman, um dos nossos maiores sociólogos vivos, preocupação que pode ser vista melhor no seu livro, Modernidade Líquida e, em relação ao tema deste artigo, o Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos.

O conceito de líquido é uma retomada da célebre frase de Marx: "Tudo que é sólido se desmancha no ar" [4]; em que o filósofo critica a atuação da burguesia de substituir todas as relações que eram sólidas como, por exemplo, o amor e a família, que tanto ele como seu companheiro de produção Engels, dissertariam depois [5]. Bauman estuda essas novas características modernas de conceitos líquidos, fluidos e leves que surgiram em oposição às ideologias fortes, pesadas e sólidas.

"O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo."[6]

Outra característica deste mundo líquido é o final da crença de que podemos alcançar um Estado de perfeição no futuro, que, pensando assim, "excluem-se" os valores sociais enquanto mantêm-se os individuais, com o seguinte pensamento: "Já que um mundo próspero não é possível então para quê gastarmos nosso tempo com isso?" [7].

Mas não podemos compreender a liquidez de Bauman simplesmente relacionada ao vazio ou ao randômico, mas sim associada à leveza de Ítalo Calvino, nas Seis propostas para o próximo milênio, em que esta seria ligada à determinação e à precisão e neste enfrentamento de forças a liquidez deixa e leva marcas nesse fluir.

Neste sentido a liquidez é um sólido e o próprio autor afirma que a modernidade tem por característica o derretimento dos sólidos desde o seu princípio, mas como preparação para outros e novos sólidos. Podemos conferir que essa liquidez não está próxima do aleatório, mas sim do determinado e assim à leveza; aproximação que Bauman mesmo fez:

“Há líquidos que, centímetro cúbico por centímetro cúbico, são mais pesados que muitos sólidos, mas ainda assim tendemos a vê-los como mais leves; menos “pesados” que qualquer sólido”.[8]

Para iluminarmos mais ainda estas passagens evoco Valery que, aliás, aparece em outra citação já no início do livro: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma” [9]. Em que expressa mais uma vez com clareza o exemplo da determinação precisa.

Voltando à questão do amor líquido que, neste livro, é estudado por Bauman nas suas várias possibilidades, como sendo: amor ao próximo, ao cônjuge ou nós mesmos. Na era globalizada, que a velocidade, seja de informações ou contato, é de extrema importância, tudo passa a ser encarado como mercadoria [10] e, o amor, como conceito, passa então a sofrer algumas modificações.

O homem criou ou se identificou em tribos, grupos, cidades, estados e etc., ou seja, necessita de relacionar-se, mas os relacionamentos modernos, segundo Bauman, são um dos valores mais ambivalentes; "pedimos" um relacionamento, mas ao mesmo tempo ansiamos para que seja leve.

Pelo ritmo veloz e influência da mídia não usamos frequentemente a palavra relacionamento, que soa excessivamente pesada, mas sim "conectar-se" expressão identificada com o mundo virtual onde outro modelo ilustra o mundo líquido: as redes. Sejam elas sociais ou de relacionamentos, como os conhecidos Orkut e MSN, pessoas se conectam umas às outras e conservam as suas redes, em que as conexões entre pessoas são feitas por escolhas tanto para conectar-se ou desconectar-se, tudo isso num ambiente de movimentos em que o compromisso pode fechar portas para novas conexões ou experiências. Observe o crescente número de pessoas que se proclamam de "relacionamento aberto" ou os "casais semi-separados", tudo isso para não diminuírem suas "possibilidades românticas" e também quando qualquer conexão começa a dar problema ou, às vezes, muito antes disso, a reação é, ao invés de se pensar em resolver o problema, tem-se a "vantagem" de desconectar, excluir, deletar ou simplesmente bloquear para outro momento oportuno ou um “nunca mais" que seja.

Além da velocidade e a noção de mercadoria, que juntas, tornam lícita e até mesmo justificam posições como o relacionamento aberto, em que, como numa aplicação na bolsa de valores, não titubeamos em vender uma ação quando ela está em baixa, da mesma forma, não hesitamos, segundo Bauman, de fazer o mesmo quando aparece uma nova possibilidade de "conexão" aparentemente mais lucrativa que a nossa atual. Este livro de Bauman não é uma coleção de formulas de sucesso para o amor (isso é coisa para os livros de auto-ajuda!) nem de como conservá-lo, mas ele traça um panorama definido sobre o momento único que vivemos, em que nunca houve tanta liberdade e facilidade na escolha de nossos parceiros - no sentindo de ser possível a possibilidade -, no entanto, isso nos remonta a um cenário dramático de incertezas, pois não sabemos se queremos ou não sair dessa situação [11], que é o que faz o autor não ter um prognóstico definitivo sobre o nosso rumo. Isso revela o que, Gioconda Bordon, disse, certa vez sobre o livro [12]:

"A sociedade neoliberal, pós-moderna, líquida, para usar o adjetivo escolhido pelo autor, e perfeitamente ajustado para definir a atualidade, teme o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa."

Não estou generalizando ou tendo uma visão pessimista do amor, que como disse no início, e ainda continuo com essa posição, é de uma instância superior, mas uma observação muito atenta deste livro e mesmo do pensamento de Bauman, é necessária, pois o estágio atual do mundo e do amor moderno seja como negação, percepção e adesão, nos afeta.

Bom pensamento e bom ócio!

* é graduando em Letras na Universidade de São Paulo.
______________________
[1]. Karl Marx. A Ideologia Alemã. Boitempo, São Paulo, 2007.
[2]. Termo muito usado por pensadores como Jean-François Lyotard que, entre outras diz, que a era das grandes narrativas, os mitos e os grandes esquemas ou escolas de pensamento haviam chegado ao fim.
[3]. Esse é o héroi do livro de Roberto Musil, O Homem Sem Qualidades, que Bauman retoma.
[4]. Karl Marx. O Manifesto do Partido Comunista. L&PM, São Paulo, 2001. Esta frase também é o título de um bom livro de Marshal Berman que também estuda a modernidade.
[5]. Engels escreveu, por exemplo, A Origem da Família.
[6]. Zygmunt Bauman. Modernidade Líquida. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001. Pág. 8.
[7]. Antonio Candido, num belo especial dedicado aos seus 90 anos, ano passado, abordou o assunto alertando para o perigo que marca o final dessas grandes ideologias, marca da nossa época, em que pode ser iminente que surja um discurso ufano ou mesmo "religioso-além-mundano”, com bastante força.
[8]. Modernidade Líquida. pág. 8.
[9]. Ítalo Calvino. Leveza. In Seis propostas para o próximo milênio. Companhia das Letras, São Paulo, 1990.
[10]. Karl Marx, no primeiro capítulo d’O Capital, já nos alertava para a característica burguesa de considerar tudo como uma mercadoria.
[11]. E talvez essa condição ideal nunca possa ser possível, pois Bauman diz adiante que "Todo amor é antropofágico” assim pode ser considerado como sendo um relacionamento por excelência "pesado" por mais que aspire à leveza.
[12]. Jornal Gazeta Mercantil, Caderno Fim de Semana, em 31 de julho de 2004

Artigo - O dólar


O papel do dólar como moeda de reserva internacional

Por Mariana Moura*

A crise é a mãe das possibilidades

A uma semana do encontro dos 20 países mais ricos do mundo – o chamado G-20 - o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, defendeu a reforma do sistema monetário internacional e propôs a substituição da moeda utilizada atualmente nas operações financeiras internacionais por uma que esteja “desconectada de interesses de um único país”.

A principal moeda utilizada em tais operações hoje é o dólar, moeda corrente dos Estados Unidos da América, e sua substituição é defendida também pelo Brasil, Índia e Rússia. Os Bric (termo cunhado pelo economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neill, em 2001 e que se refere aos quatro países que estão sustentando o mundo durante a crise), possuem reservas internacionais no valor de US$ 2,8 trilhões, segundo dados da Bloomberg.

Só a China tem US$ 1,97 trilhão em reservas, uma boa parte em títulos dos EUA. Em setembro do ano passado, a nação superou o Japão como o maior credor dos Estados Unidos, e em dezembro detinha US$ 727,4 bilhões em bônus do Tesouro – em dólar. Mas, a moeda dos Estados Unidos só tem perdido valor em relação às moedas dos países que detêm as reservas. Em um mês, o de abril, o real se valorizou 11,2%, o rublo, 6,9%, e a rúpia, 6,4%, em relação ao dólar.

E, ainda, não só o uso prioritário do dólar como moeda de reserva está dando prejuízo para estes países, como sustenta uma relação de dominação que já não é mais tão aceita.

“O privilégio de fornecer a divisa de reserva do mundo, o dinheiro que os países utilizam para efetuar negócios para além das suas fronteiras, é uma fonte de poder para o país que a controla mais valiosa do que a mais poderosa força militar. Uma vez que virtualmente todo dinheiro é criado ‘a partir do ar’ por meio de entradas em contabilidades bancárias, o país que fornece a divisa de reserva do mundo tem o poder de criar dinheiro suficiente para comprar o mundo”, afirmou o historiador Steven Lesh, em recente artigo (O 'soft power' dos EUA e os bancos).

A alternativa apresentada pela china é ampliar o uso dos Direitos Especiais de Saque (DES) emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Criados em 1969 por proposta do presidente francês Charles De Gaulle, os DES são aceitos hoje apenas para pagamentos entre governos e instituições internacionais. A proposta é que sejam usados também em operações de comércio e financeiras, como a precificação de produtos comercializados internacionalmente (commodities), investimentos e balanços contábeis.

O problema é que o valor dos DES é controlado pelos poucos países que mandavam no Fundo. Seu preço é definido pelo euro, o yen, a libra esterlina e (novamente e fundamentalmente) pelo dólar. Mantém a dependência.

O presidente do Banco Central chinês afirma, com propriedade, que, “teoricamente, uma moeda de reserva internacional deveria ser desconectada das condições econômicas e de interesses soberanos de um único país”. De um único país não pode, mas de apenas quatro sim?

* Graduanda do 6º semestre do Curso de Relações Internacionais Belas Artes

Resenha - A Revolução Venezuelana


Um retrato honesto da Venezuela

Igor Fuser *

Na lista dos demônios da mídia empresarial, o posto número 1 pertence, disparado, a Hugo Chávez, com sua boina vermelha e língua ferina. Raramente se passa um dia sem que alguma publicação da chamada "grande imprensa" despeje regulares doses de veneno contra o presidente venezuelano, apresentado como louco, fanfarrão, ditador ou incompetente. Essa cantilena se mantém há mais dez anos. Para ser exato, desde o início de 1999, quando o antigo coronel iniciou, após sua chegada ao governo, a transformação de um dos países de estrutura social mais iníqua no planeta – mais de 50% dos habitantes na miséria, em contraste com os lucros nababescos das exportações de petróleo – em uma referência mundial para todos os que cultivam os valores da justiça e da igualdade.

O livro de Gilberto Maringoni (A Revolução Venezuelana, Editora Unesp, 2009) merece ser saudado com um antídoto perfeito contra a manipulação informativa que, na imprensa brasileira, atingiu as raias de uma lavagem cerebral. Jornalista e historiador, Maringoni fala de um tema que conhece em primeira mão. Viajou várias vezes à Venezuela e lá entrevistou quase todos os nomes que valiam a pena no tumultuado enredo político local – dos caciques da oposição conservadora, como Teodoro Petkoff, às figuras mais graduadas do regime esquerdista, entre as quais o próprio Chávez, além das mais variadas fontes na esfera acadêmica.

Com dados confiáveis em mãos, o autor desvenda o enigma oculto sob a campanha midiática anti-chavista: como é possível que um caudilho supostamente tão desastrado mantenha altíssimos índices de apoio popular durante tanto tempo? É errado reduzir, como insistem os detratores da experiência venezuelana, o prestígio de Chávez à bonança petroleira da última década. A Venezuela já viveu outros períodos de alta dos preços do petróleo, sem que a população tivesse tido acesso a mais do que umas magras migalhas do banquete. A marca da gestão chavista é algo que as primeiras gestões municipais petistas defendiam no Brasil e que, lamentavelmente, diluiu-se no lodaçal dos compromissos com as classes dominantes: a inversão das prioridades em favor das multidões oprimidas, ainda que ao preço do confronto aberto contra as elites privilegiadas.

Na Venezuela, os gastos sociais aumentaram de 8,2% do PIB, em 1998, para 13,6% em 2006. Os índices de pobreza caíram de 55,1% para 27,5%. O salário mínimo se elevou numa escala sem precedentes em qualquer outro país do chamado Terceiro Mundo e milhões de venezuelanos passaram a ter acesso a uma infinidade de benesses antes inalcançáveis – desde serviços essenciais, como assistência médica e dentária, aos ícones do consumo descartável, como telefones celulares. Nesse cenário em que a mudança passa do plano da retórica para a existência cotidiana, torna-se fácil entender porque Chávez foi vitorioso em todas as freqüentes consultas eleitorais que promoveu, com apenas uma exceção.

O grande mérito de Maringoni é que ele não se limita a salientar as conquistas do processo político venezuelano, mas também aponta, sem medo de entrar em polêmica com os defensores mais entusiastas do chavismo, os limites do festejado "socialismo do século XXI". Concretamente: após dez anos de "revolução bolivariana", o velho modelo de desenvolvimento dependente latino-americano, erigido com base na exportação de produtos primários (no caso, o petróleo), permanece inalterado. Os ganhos desse modelo, é verdade, passaram a beneficiar, pela primeira vez, a maioria da população, sobretudo depois que Chávez retirou a estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) das mãos da camarilha que a controlava, enquadrando a empresa sob o controle público. Mas o caminho ainda está no seu início: "O Estado continua ineficiente, lerdo, corrupto e avesso às interferências populares", escreve o autor.

Mesmo que seja prematuro falar em uma verdadeira revolução na Venezuela, é inegável que o governo de Chávez mudou a face política daquela sociedade e, em certa medida, de toda a América do Sul. A influência venezuelana se faz presente em todo um conjunto de países onde, pela primeira vez, o poder de Estado passa a ser exercido em benefício das maiorias. Como afirma Maringoni, referindo-se à época de ofensiva conservadora mundial pós-1989: "A Venezuela é, com todos os problemas, o país onde mais se avançou, nesse período, na contestação ao neoliberalismo e no questionamento do poder global dos Estados Unidos." Aí reside a explicação para o ódio que Chávez desperta entre os donos da mídia brasileira e internacional. Ele é, de fato, um sapo difícil de engolir.

* é jornalista, professor na Faculdade Cásper Líbero, mestre em Relações Internacionais, doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato, e ex-professor do curso de Relações Internacionais Belas Artes.

Imagem do Mês - Operação Pandemia


O pequeno documentário busca os interesses e os dados reais - para além do que é divulgado pela mídia - sobre a gripe causada pelo vírus Influenza A. vale a pena assistir:

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nota da redação


(Não leia antes de ver o artigo “FEBEABA do Marconini” e os comentários a seu respeito)


Quando da publicação desta edição de O Diplomático, não imaginava eu que haveria tantas reações enérgicas ao artigo “FEBEABA do Marconini”. Pensei em postar simplesmente um comentário sobre a discussão, mas algumas colocações feitas dizem respeito não só à minha opinião mas também à minha atuação enquanto editor responsável por este espaço.

É difícil saber por onde começar, mas vamos lá. Explicarei como funciona o blog, em primeiro lugar, para evitar confusões:

O Diplomático é, como diz em seu cabeçalho, “uma publicação coletiva e democrática”. E há lá também a seguinte inscrição: “Blog dos alunos de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo”. Pois bem, o que isso significa? Significa que todos os alunos de RI da BA podem participar da publicação (enviando textos, participando das reuniões do Conselho Editorial etc.). Se o fazem ou não, é uma outra questão.

Aliás, acabo de me lembrar que existe um Projeto Editorial que orienta O Diplomático. Quem quiser saber mais pode solicitar uma cópia dele a qualquer um dos membros da gestão Nova Ordem Acadêmica. Este espaço é sério e o respeito a ele é uma exigência da qual não abro mão.

Como bem colocou Paulo Meirelles em seu comentário, os artigos assinados refletem a opinião do autor, e não necessariamente a opinião da BA ou do CA. O Marcio, como aluno, tem o direito de escrever o que quiser desde que isso não vá de encontro à nossa linha editorial, que preza pela tolerância e pelo respeito. Não encontro no texto em foco qualquer trecho que possa ser qualificado como desrespeitoso, vejo-o antes como um artigo crítico que se contrapõe a uma opinião divergente, ambas com razão de existir. E, como todo artigo, expressa a “opinião pessoal” de alguém, com o perdão da redundância.

Tudo isso para demonstrar que o artigo do Marcio foi publicado no lugar correto, ao contrário do que aventa o aluno Lucas Fazioli Fedele. Se foi um devaneio ou se foi expresso de forma inadequada, é outro debate, do qual tratarei mais abaixo, quando chegarmos ao mito da imparcialidade. O tempo em que havia censura em grande medida já se foi, embora alguns pareçam sentir saudades. O texto não será excluído e nenhum tipo de ingerência aqui será aceito, ao menos enquanto eu for o editor.

Se apenas foi publicada a opinião do Marcio sobre tal palestra, isso se deve ao fato de ele ter sido o único aluno a escrever e enviar um texto. Aproveito para deixar registrado que o outro artigo que seria publicado (geralmente são ao menos dois) não o foi porque quem havia ficado responsável por ele não o enviou. De quem estou falando? De um tal Filipe Matheus, por acaso o mesmo que agora aparece para comentar a postagem afirmando ser o Marconini uma personalidade “inquestionável”. Inquestionáveis não são nem mesmo os deuses, pois podemos questionar a existência ou não deles. Imagine um ser humano... Ora, por favor.

Mas a porta continua aberta, pois, ao contrário do que insinua o outro Lucas, o Parreira Lorini, não só publicamos o seu comentário inteiro neste espaço como também publicaríamos um artigo dele caso tivesse se dado ao trabalho de escrever um – interferimos apenas para fazer ajustes gramaticais e ortográficos e, como você parece escrever razoavelmente bem, não haveria tanto o que mexer. O seu questionamento sobre o espírito democrático dos que participam deste blog, no entanto, é inaceitável e demonstra total distanciamento seu em relação aos membros do CA. Como disse Voltaire (aproveitando que as citações estão em alta no fórum), “não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”.

Enfim, sobre o papel do CA e do blog, tenho a dizer que não é nosso dever central divulgar uma boa imagem do curso, mas estimular a capacidade crítica e reflexiva de cada estudante, buscando elevar seu grau de consciência e conhecimento. Feito isso, uma boa imagem dos alunos e do curso é conseqüência. O caminho para isso não é sendo condescendente (ou, para ficar claro, “puxando o saco”) de poderosos em geral nem tampouco assumindo o papel de agência de publicidade da instituição, até porque ela já deve ter uma contratada. É preciso ir além.

Aviso: quem discorda da atual gestão pode se organizar e formar uma chapa para concorrer ao CA no fim do ano, mas não vale querer deslegitimar uma representação que, é importante lembrar, foi eleita com o apoio de cerca de 85% do corpo discente. Outro aviso: isso dá trabalho. Corre-se o risco de noites mal dormidas para levar ao ar uma publicação que depois, em minutos, pode ser achincalhada sem o menor rigor ou respeito. Ainda sim, acredito que valha a pena.

Colocado tudo isso, tratarei de outro ponto. Não assisti à palestra, mas como todos os “revoltados” espernearam sem negar que as falas preconceituosas do Marconini reproduzidas pelo Marcio são verdadeiras, me pautarei nisso para levantar alguns questionamentos. Além do que o companheiro Marcio possui uma excelente reputação, tem credibilidade no curso e é uma pessoa que goza da minha absoluta confiança. (E talvez ele veja um pouco além, Lucas, por estar no sétimo semestre... creio não ser à toa que ele ocupa a presidência do CA).

Infelizmente, não vou conseguir abordar tudo com o rigor e a minúcia que gostaria. De qualquer forma, pensemos.

Vi a existência de comentários absolutamente contraditórios. O primeiro Lucas diz que debater um artigo vai contra o seu bom-senso. Política não é futebol nem religião, meu caro, é algo racional que pode e deve ser debatido. Ele afirma que o Marcio disse asneiras e que sua visão é “obtusa”. O que pode ser mais obtuso e pobre do que dividir as opiniões políticas em certas ou erradas? Pois é isso que ele faz ao dizer ter sido “comunista convicto, até o dia em que me provaram estar errado”. Coitado.

O Diplomático não é imparcial. Causa choque a alguém essa afirmação? Pois não deveria causar a um universitário. Não existe imparcialidade nos veículos de comunicação, e os que dizem exercê-la nada mais estão fazendo do que vender a sua visão como se fosse a única possível ou verdadeira. Em jornalismo sério, fala-se de responsabilidade em relação às informações veiculadas e em honestidade de assumir seu ponto de vista de modo transparente. A atual gestão é composta majoritariamente de alunos de esquerda, e creio que isso não seja surpresa para ninguém, mas não é só. E não há sequer um extremista, tenham certeza.

Ao contrário do que disse o Lucas Parreira Lorini, a crise atual pode não ser conjuntural, mas estrutural. E será preciso escolher um modelo a seguir, que pode ser o da FIESP, de dar sobrevida a um sistema que explora muitos para assegurar o sossego de uns poucos. Projeto este que, como demonstrou a Operação Castelo de Areia da Polícia Federal, envolve muita corrupção, para manter longe do poder políticos que ousem desafiar o tal do status quo, ou seja, a ordem.

Outro projeto possível é o levado a cabo por tantos outros governos da América Latina, que têm como prioridade o povo (ausente da definição de Brasil de umdos Lucas). Venezuela e Bolívia têm analfabetismo hoje em torno de zero (segundo dados da ONU, antes que questionem). E a solução de outros problemas sociais avança. O povo passou a desempenhar algum papel, o Estado está se democratizando (muito embora a “grande mídia”, por estar a serviço de “grandes interesses”, tente demonstrar o contrário, criando um senso comum raso e falso, não permitido a alunos de RI que pretendam em algum momento da vida reivindicar a carreira de intelectual).

De fato, enquanto estudantes considerarem uma palestra em que um indivíduo diz que é preciso dar “uma cacetada” em outro povo a melhor de um evento o país não irá muito longe mesmo. (E, conhecendo o professor Sidney, sei que a atividade com Marconini foi a exceção, jamais a regra, da Semana Diplomática.)

Para mim, fica a pergunta: e se o Marcio tivesse chamado de “elefante bêbado” o Marconini? Por muito menos, Marcio foi acusado de uma série de coisas, inclusive de ser “arrogante”, justamente por alguém que em seu comentário desrespeitou outrem – no caso, Lucas Fedele foi arrogante com Marcelo, segundo a acepção que ele mesmo encontrou no dicionário para a palavra. Aliás, ele se diz contra cercear a expressão das opiniões, mas sugere a retirada do texto do Marcio do blog. Ah, e ele fala também em “nível intelectual”...

Diz que vivemos em uma sociedade livre. Ande pela sua cidade e verá que essa liberdade não é a mesma para todos, aposto que muitos gostariam de fazer RI na BA, mas ou não podem pagar os “míseros” mil reais cobrados ou tiveram uma formação tão precária que sequer sabem o que significa “relações internacionais”. É isso a liberdade para você? Pois, para mim, não é.

Corro o risco de ser acusado de ser panfletário mesmo sem citar Marx (e esse é um critério absurdo), mas não me importo. O Filipe diz lamentar o artigo do Marcio. Pois eu lamento o fato de haver entre nós aqueles que agem como o escravo que, para agradar ao seu senhor, matava outro escravo. É preciso levantarmos a cabeça e identificarmos os problemas que acometem este país, e isso não se dará com estudantes brigando entre si, ainda mais com um grupo defendendo aqueles que são responsáveis em certa medida pelo estado em que se encontra o Brasil.

Max Gimenes

PS: Se por “sequazes” do Marcio entende-se “os comunistas”, ou alguma variação disso, sinto-me pessoalmente ofendido. Chamar de “gente estragada” aqueles que lutam por um outro mundo possível e necessário, com justiça social e onde todo ser humano possa ser verdadeiramente livre, é um disparate. Ninguém precisa concordar com o texto acima, aliás é saudável que não o façam sem antes refletir criticamente, mas tenham a certeza de que ele foi escrito com responsabilidade e honestidade. E, obedecendo a regra da transparência, declaro: eis aqui um comunista, que não esconde as suas convicções atrás da máscara de uma suposta "isenção" nem distorce a realidade para melhor atendê-las.